Afonso X


Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
 nem d'amor nem de missom
 5nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigosas som
- come d'um bom galeom
 que mi alongue muit'aginha
10deste demo da campinha,
 u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
  
E juro par Deus lo santo
15que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
20vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dornom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
25do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
  
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
  30adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
35que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
 e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
  
40E direi-vos um recado:
pecado
nunca me pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
45- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
50algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.



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Nota geral:

Uma das composições mais célebres de Afonso X e também uma das mais polémicas. Nela se exprime, com o que parece ser uma sentida amargura, o desgosto da guerra e das intrigas que à sua volta se tecem (tão bem cristalizadas na imagem do lacrau escondido na campina), a que se contrapõe a imagem do regresso a uma vida de pacífico comércio marítimo, longe das armas e dos jogos bélicos.
Se todos os editores são unânimes quanto à originalidade e força ímpares da cantiga, a sua interpretação tem sido polémica no que diz respeito à questão de se tratar ou não de uma composição autobiográfica. Contrariamente ao entendimento de Lapa1, mas na linha de Carolina Michaelis2, cremos ser possível que se trate de um maldizer aposto (ou seja, uma cantiga posta na boca de um outro), como existem diversos exemplos no cancioneiro satírico. Este entendimento pode apoiar-se em três ordens de motivos: em primeiro lugar, o da incongruência deste desabafo real (desta fraqueza), se tivermos em conta a ideologia da nobreza medieval, de resto bem exposta em toda a restante produção afonsina, nomeadamente nas sátiras contra a cobardia dos cavaleiros e soldados nos campos da Andaluzia; em segundo lugar, a referência a uma anterior profissão, muito pouco credível na boca real (ca eu foi já marinheiro/ e quero-me [...]/ tornar /ao que me foi primeiro); por último, a existência de uma outra composição onde, no final (exatamente na finda), se exprimem sentimentos semelhantes, aí claramente postos na boca da personagem satirizada.
O facto de se poder considerar esta composição um maldizer aposto e dirigido contra um terceiro não implica, no entanto, que nela não se exprima uma certa empatia do rei pela posição do que quer abandonar a guerra - pelo contrário, pensamos que essa empatia cria uma ambiguidade que dá uma força suplementar à cantiga.
Note-se finalmente que a composição, com o seu ritmo irregular, é ainda notável do ponto de vista formal.

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.

2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (2004), "Desejaria tornar-me marinheiro", in Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português (trad. do texto de 1905) , Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis.



Nota geral


Descrição

Sirventês moral
Mestria
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 480, V 63

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 480

Cancioneiro da Vaticana - V 63


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Non me posso pagar tanto 

Versão de Manuel Pedro Ferreira

Composição/Recriação moderna

Perigosas elas são 

Versão de Fontes Rocha, Ary dos Santos