Afonso X


Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
 por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
  
 Ir podedes a Libira e torceredes já quanto,
5e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
  
 E ũa coisa sei de vós e tenho por mui gram brio,
  e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
  
10Eu por en [bem] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
 que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
  e nom dedes nemigalha por mui te[r] Dom Joam Coelho.
  
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
 bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
15quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
  
  Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
  de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e [e]nos feitos ardido e muito aventurado.
  
 E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
20e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
 nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
  
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
 g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
 - ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
  
 25Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
  u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
  a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
  
 E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
 que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
 30Ca vos eu dizer: - Com estas petei e frango.
  
 E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
  com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
 jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
  
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
 35porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
 com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.



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Nota geral:

Extensa cantiga que parece ser dirigida ao fidalgo e trovador português D. Gonçalo Anes do Vinhal, que acompanhou longamente Afonso X, desde a sua primeira campanha em Múrcia, em 1243, ainda Infante. As numerosas alusões da cantiga que o rei lhe dirige não são totalmente claras. Entre elogios ao seu comportamento como cavaleiro e à sua boa fortuna em Castela, D. Afonso parece insinuar que a viagem até Sevilha que D. Gonçalo se propunha iniciar, a pretexto de ver a sua amiga, teria, de facto, por detrás, outros motivos menos claros. A alusão, feita no final da cantiga, às "duas espadas" de D. Gonçalo poderá igualmente aludir a um comportamento (político?) duvidoso.
Sendo certo que D. Gonçalo do Vinhal parece ter sido muito próximo do rei castelhano, pelo menos até uma fase adiantada do seu reinado, tendo dele recebido numerosas doações e mesmo privilégios, não é fácil determinar o contexto exato desta composição, sobre a qual só poderemos, com segurança, determinar ser posterior a 1252, ano da conquista de Sevilha. Para complicar este quadro geral, a composição fornece-nos ainda algumas outras referências também difíceis de contextualizar, nomeadamente a dupla alusão que o rei faz a João Coelho (vs. 12 e 24), aparentemente o trovador português João Soares Coelho (igualmente atestado no círculo do Rei Sábio, mas provavelmente antes de 1249), alusão esta que parece dar a entender que a cantiga se situaria igualmente num contexto mais privado, o de um qualquer contencioso entre os dois trovadores portugueses.
Tendo em conta este grau de incerteza, a hipótese mais frequentemente avançada (por Rodrigues Lapa1, seguindo Carolina Michaelis2) coloca a cantiga nos anos iniciais do reinado do Rei Sábio, e no contexto das dissidências entre o monarca e o seu irmão D. Henrique, que se arrastaram de 1253 a 1258. Teríamos assim de pressupor que, no xadrez político da Castela da época, o lado do infante D. Henrique talvez tivesse tentado momentaneamente o ambicioso fidalgo português. A toponímia referida na composição, fazendo referência a lugares que foram palcos da contenda, parece conjugar-se bem com esta hipótese. A ser este o contexto, a cantiga poderia eventualmente datar de 1256 (talvez no regresso de D. Gonçalo de uma viagem a Portugal), uma vez que é em 1257 que o monarca castelhano concede a D. Gonçalo o senhorio de Aguilar, o que indica que qualquer eventual mal entendido estaria sanado. Quanto às referências a João Soares Coelho, elas poderiam dizer eventualmente respeito à repartição das benesses reais (em Castela ou mesmo em Portugal), em relação às quais D. Gonçalo se poderia ter sentido prejudicado face a D. João Soares.
Sendo certo, no entanto, que não temos notícia de qualquer conflito entre D. Gonçalo e Afonso X nesta época, e que, por outro lado, bem mais para o final do seu reinado, D. Gonçalo se afasta politicamente do monarca para tomar decididamente o partido do infante rebelde D. Sancho, também não seria impossível deslocar a composição para essa época, ou seja, para os anos finais da década de 1270. Neste caso, e tendo em conta a data provável da morte de João Soares Coelho, ocorrida pouco depois de 1279, a cantiga poderia talvez datar de 1276-1277, momento em que D. Gonçalo regressa de nova viagem a Portugal.
São meras hipóteses de explicação para uma composição cujo sentido será certamente multifacetado. A sua extensão (que é excecional, mesmo entre a produção do Rei Sábio) parece, de resto, indicar isso mesmo.

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.

2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. II, Lisboa, Imprensa nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904), p. 380.



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 466
(C 467)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 466


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas