João Soares Coelho


Pero m'eu hei amigos, nom hei ni um amigo
com que falar ousasse a coita que comigo
 hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
       de mui bom grado [me] querria ir
5       a um logar e nunca m'end'ar viir.
  
Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
 des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
       de mui bom grado [me] querria ir
10       a um logar e nunca m'end'ar viir!
  
A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'eu entend'e quem mais quiser entenda:
       de mui bom grado [me] querria ir
15       a um logar e nunca m'end'ar viir!
  
De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
       de mui bom grado [me] querria ir
20       a um logar e nunca m'end'ar viir!



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Nota geral:

A originalidade desta cantiga é o elaborado jogo que desenvolve com o processo conhecido como mozdobre, a repetição, nos mesmos lugares de cada estrofe, de variantes de uma mesma palavra (conforme indicado na sua Descrição, incluída na coluna direita desta página). De resto, o trovador diz-nos que, embora tenha amigos, a nenhum pode confessar as suas mágoas (de amor), nem o seu único desejo: ir para um determinado lugar e nunca mais voltar. Se bem que o trovador nunca explicite que lugar é esse, subentende-se, até pelo vocabulário usado, próprio das cantigas de amor, que será o lugar onde mora a sua senhora (embora a ambiguidade permaneça até ao fim da cantiga, diga-se).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Refrão
Cobras singulares
Mozdobre: amigos/amigo, coitados/coitado, prendo/prenda, guardo/ guardar-m'-ia (v. 1 de cada estrofe); dizer/digo, fui, entendo/entanda, vi (v. 3 - imperf.)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 160

Cancioneiro da Ajuda - A 160


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas