Rui Queimado


Nunca fiz cousa de que me tam bem
achasse come de quanto servi
sempr'ũa dona, des quando a vi,
que amei sempre mais ca outra rem;
 5ca, de pram, quanto no mundo durei,
os dias que a servi, gaanhei
- e tantos houv'end', a prazer de mi.
  
E tenho que me fez Deus mui gram bem
em me fazer tam bõa don'amar
10e de a servir e nom m'enfadar,
nem tee-lh'o mal, que me faz, em rem;
e de me dar coraçom de teer
por bem quanto m'ela quiser fazer
e atender temp'e nom me queixar.
  
15E de pram, sempre des que lh'eu quis bem,
maior ca mi e com maior razom,
 sempre eu coidei que verria sazom
que lh'ousaria eu algũa rem
dizer do bem que lh'eu quer'! E estou
20atendend'aquel temp'! E nom chegou!
Pero estou led'em meu coraçom,
  
porque quero tam bõa dona bem,
 de que sei ca nunca me mal verrá;
ca se morrer por ela, prazer-mi-á!
25Se mi ar quiser fazer algũa rem
como nom moira, fará mui melhor;
e ben'o pode fazer mia senhor,
ca tod'aqueste poder ben'o há;
  
e em fazer em mim quanto quiser
30e em valer mui mais doutra molher
em parecer e em tod'outro bem.



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Nota geral:

Cantiga de amor em tom otimista, na qual o trovador abençoa a decisão que tomou de amar e servir uma dona, pois todos os seus dias - e muitos foram - passaram a ser dias ganhos. Agradece, pois, a Deus o bem que lhe concedeu ao fazê-lo amar tal senhora, sem nunca se enfadar, não dando qualquer importância ao mal que ela lhe faz, aceitando de boa vontade tudo o que ela achar por bem, e esperando o tempo propício sem se queixar (ou seja, agindo em tudo como um leal servidor). Pois desde o primeiro momento acreditou que esse tempo chegaria, o de lhe confessar o seu amor. E embora continue à espera, o seu coração permanece alegre, pois ama tão boa dona, da qual, como acredita, nunca lhe virá mal. Se ela o quiser favorecer um pouco, não terá dificuldade em fazê-lo, e decerto que ele só terá de lhe agradecer, a ela, que é a mais bela e melhor de todas.
Como se compreende, a cantiga é uma espécie de manual do bom e leal amante cortês.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras singulares (rima a uníssona)
Palavra(s)-rima: bem (v. 1 de cada estrofe); rem (v. 4)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 137, B 258

Cancioneiro da Ajuda - A 137

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 258


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas