Fernão Garcia Esgaravunha


Quam muit'eu am'ũa molher
non'o sabe Nostro Senhor,
nem ar sabe quam gram pavor
hei hoj'eu dela, cuido-m'eu;
5ca, se o soubesse, sei eu
 ca se doeria de mi
e nom me faria assi
querer bem a quem me mal quer.
  
 Pero que dizem que negar
 10nom xe Lhe pode nulha rem
que El nom sábia, sei eu bem
que aind'El nom sabe qual
bem lh'eu quero, nem sab'o mal
que m'ela por si faz haver;
15ca, se o soubesse, doer-
s'-ia de mi, a meu cuidar.
  
Ca Deus de tal coraçom é
que, tanto que sabe que tem
eno seu mui gram coit'alguém,
20logo lhi conselho pom;
e por esto sei eu que nom
sab'El a coita que eu hei,
nem eu nunca o creerei
 por aquesto, per bõa fé.



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Nota geral:

O trovador, de forma algo heterodoxa, argumenta que Deus decerto desconhece ainda o grande amor que ele tem à sua senhora e também o medo que tem dela - porque, se soubesse, condoer-se-ia dele e não o faria apaixonar-se por quem lhe quer mal. E embora todos digam que nada se pode esconder a Deus, ele continua a pensar que Ele nada sabe do seu sofrimento, porque, sendo próprio de Deus ajudar todos os que sofrem, o trovador não pode acreditar que no seu caso não seja assim.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 119, B 235

Cancioneiro da Ajuda - A 119

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 235


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas