Pero Garcia Burgalês


 Ai Deus! Que grave coita de sofrer:
desejar mort'e haver de viver
com'hoj'eu viv', e mui sem meu prazer,
com esta coita, que me vem tanta!
5Desejo mort'e queria morrer,
        porque se foi a rainha franca.
  
A esta coita nunca eu par vi:
desejo morte, pero vivo assi,
per bõa fé, a gram pesar de mi;
10e direi-vos que me mais quebranta:
desejo morte, que sempre temi,
       porque se foi a rainha franca.
  
Ai coitado! Com quanto mal me vem,
porque desejo mia mort', e por en
15perdi o dormir e perdi o sem,
e choro sempre quand'outrem canta;
e mais desejo morte doutra rem
       porque se foi a rainha franca.



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Nota geral:

Esta curiosa composição parece em tudo uma cantiga de amor, exceto no seu problemático refrão. Um refrão que, para complicar as coisas, não é de leitura evidente: na verdade, tanto poderemos ater-nos à letra dos manuscritos e ler porque se foi a rainha franca (opção que tomámos), como poderemos corrigi-los ligeiramente e ler porque se foi a rainh´a França (como sugere D. Carolina Michaelis, em nota à edição da cantiga1). Em ambas as leituras, no entanto, a palavra rainha não oferece dúvidas. Se mais não fosse, pois, esta inusitada referência a uma rainha (nos cancioneiros, e se excetuarmos o pranto pela morte da rainha D. Beatriz, é esta uma alusão única) confere à cantiga uma certa estranheza e leva a pensar que estaremos talvez face a uma falsa cantiga de amor, ou seja, face a uma sátira indireta, aludindo eventualmente a quaisquer amores reais. Seria uma estratégia semelhante à utilizada por Gonçalo Eanes do Vinhal nas duas falsas cantigas de amigo relativas aos alegados amores da madrasta de Afonso X, a rainha viúva D. Joana de Poitiers, com o seu enteado, o infante D. Henrique, irmão do rei Sábio - as personagens podendo, aliás, ser as mesmas. Nesta interpretação, que parece possível, seria, pois, a voz de D. Henrique que ouviríamos aqui.
De qualquer forma, e dado que esta composição de Pero Garcia Burgalês, ao contrário das de D. Gonçalo, não vem acompanhada de qualquer rubrica explicativa, a incerteza quanto ao seu real sentido subsiste. É esta incerteza que nos levou a optar, como D. Carolina, pela leitura literal do refrão, leitura que não impede, no entanto, um eventual sentido equívoco (uma vez que o termo franca pode ter igualmente o sentido de "francesa").

Referências

1 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904) .



Nota geral


Descrição

Género incerto
Refrão
Cobras singulares
Dobre: desejar/desejo morte (vv. 2 e 5 de cada estrofe)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 222

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 222


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas