Pero Garcia Burgalês


De quantos mui coitados som,
a que Deus coita faz haver,
mim faz mais coitado viver;
e direi-vos per qual razom:
5faz-me querer bem tal senhor,
a mais fremosa nem melhor
do mund', e nom mi a faz veer.
  
E dá-me tal coita que nom
sei de mim conselho prender;
10e fez-me já pavor perder
de mia mort', há i gram sazom,
ond'ant'havia gram pavor.
Veed'ora se há maior
coita no mundo de sofrer!
  
15E nunca me Deus quis guisar,
em quanto cuidado prendi,
u cuidei al, em cuidar i
em como podess'acabar
do que querria nulha rem.
20Mais cuid'em quanto mal mi vem!
Cativ'e mal dia naci!
  
E quant'hoj'est a meu cuidar,
 bem per sei eu ca nom há i
coita maior das que a mi
25faz mia mort'ora desejar.
 Pero nom querria por en
morrer, se cuidasse haver bem
da que por meu mal dia vi.



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Nota geral:

O trovador é o maior dos infelizes: Deus fê-lo amar uma senhora e agora impede-o de a ver. O seu sofrimento é tal que já perdeu mesmo o medo da morte, que antes o aterrorizava. De resto, pensando continuamente no seu mal, nem se lembra de pensar na melhor maneira de obter o que deseja. Mas se acaso tivesse esperança de o obter, então já não quereria morrer.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
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Fontes manuscritas

A 82, B 186bis

Cancioneiro da Ajuda - A 82

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 186bis


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas