Martim Soares


Por Deus, senhor, nom me desamparedes
a voss'amor, que m'assi quer matar;
e valha-mi bom sem que vós havedes
e Deus, por que vo-l'eu venho rogar;
5e valha-mi, fremosa mia senhor,
 coita que levo por vós e pavor;
e valha-mi quam muito vós valedes.
  
E valha[m]-mi porque [bem] saberedes
que vos eu nunca mereci pesar
10de que me vos com dereito queixedes,
ergo se vos pesa de vos amar;
e nom tenh'eu que é torto nem mal
d'amar home sa senhor natural,
ant'é dereito e vós vo-l'entendedes.
  
15E, mia senhor, por Deus, nom me leixedes,
 se vos prouguer, a voss'amor forçar;
ca nom posso'eu com el, mais poder-m'-edes
vós, se quiserdes, de força guardar,
de tal guisa como vos eu disser:
20senhor fremosa, se vos aprouguer,
pois m'el por vós força, que o forcedes.
  
E pois nós ambos em poder teedes,
nom me leixedes del forçad'andar:
ca somos ambos vossos e devedes
25a creer quem vos melhor conselhar;
e, mia senhor, cuido que eu serei,
ca sempre vos por conselho darei
que o voss'home de morte guardedes.
  
E fiqu'Amor como dev'a ficar,
30quando vos nom quiser avergonhar
de vos matar um home que havedes.



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Nota geral:

Composição que retoma de novo o quadro e o vocabulário feudais, recurso frequente de Martim Soares nas suas cantigas de amor. Sobre o sentido da expressão senhor natural (v. 13), veja-se, por exemplo, a explicação que fornecemos na Nota Geral a esta outra cantiga.
Aqui o trovador pede à sua senhora que não o desampare e que o proteja do Amor, que o quer matar. E enumera o que lhe poderá valer: o bom senso dela e a sua honra, Deus, o sofrimento por que tem passado, o facto de nunca lhe ter dado motivos de queixa - salvo se lhe desagrada o simples facto de a amar. Mas um vassalo deve amar a sua senhora, e isso não pode ser considerado uma ofensa.
Confessando a sua fraqueza em relação à violência que o Amor sobre ele exerce, ele pede-lhe, pois, que exerça também ela a força que tem sobre o Amor e que o salve.
Pois sobre ambos ela exerce o seu domínio - sobre ele e sobre o Amor. E dos dois, quem melhor conselho lhe dará será ele: o de proteger o seu vassalo da morte. E o Amor salvar-se-á da vergonha de lhe matar um seu vassalo.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas (rima c singular)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 59, B 170

Cancioneiro da Ajuda - A 59

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 170


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas