Osoiro Anes


E por que me desamades,
a[i]! melhor das que eu sei?
Cuid'eu, rem i nom gãades
eno mal que por vós hei!
5Pola ira 'm que mi andades,
 tam graves dias levei;
dereit'hei,
que da rem que mais amei,
 daquela me segudades:
  
10de vós! E, certas, sabiades
outr'amor nom desejei;
e se vós end'al cuidades,
 bem leu tort'en prenderei!
E por Deus, non'o façades,
15ca por vós me perderei!
Conort'hei,
em que pouco durarei,
se mais de mim nom pensades!
  
De muitos som perguntado
20de que hei este pensar;
e a mim pes'aficado
de quem me vai demandar;
hei log'a buscar, sem grado,
razom por me lhe salvar;
25e a guardar-
m'hei d'eles, e a ra[n]curar,
e andar i come nembrado.
  
Ali me vem gram cuidado,
depois que me vou deitar;
30pero sõo mais folgado,
que lhi[s] nom hei de falar;
jasco deles alongado,
que me nom ouçam queixar.
Tal amar
35podedes mui bem jurar
que nunca foi d'homem nado.
  
Ũa rem vos juraria,
e devêde-lo creer:
que jamais nom amaria,
40se desta posso viver,
quando vós, que bem queria,
tam sem razom fui perder;
que prazer
havedes de me tolher
45meu corpo, que vos servia?
  
Ca me nom receberia
Aquel que me fez nacer;
nem eu nom vos poderia
atal coita padecer;
50ca per rem nom poderia,
pois me deit' adormecer
e entender
no vosso bom parecer
– a valer me dormiria!



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Nota geral:

Mais uma original cantiga de Osoiro Anes, se bem que, neste caso, o texto ofereça alguns problemas de edição, nomeadamente nas estrofes finais, bastante deturpadas nos manuscritos.
Dirigindo-se à sua senhora, a melhor de entre todas, o trovador queixa-se do seu desamor, que o faz viver dias difíceis, pedindo-lhe, pois, que o proteja de si própria. Até porque, garante, se nunca desejou o amor de nenhuma outra, receia que ela pense o contrário, fazendo-o sofrer injustamente as consequências. E, nesse caso, a sua vida muito pouco durará, ideia que lhe dá algum conforto.
A partir de 3ª estrofe, a cantiga introduz um novo motivo, seguindo, a partir de aí, um desenvolvimento bastante original. O trovador diz, pois, que se sente incomodado com as perguntas dos muitos que pretendem saber a que se deve o seu ar pensativo, obrigando-o, muito contrariado, a dar justificações, e levando-o a isolar-se, irritado consigo próprio e com o mundo, e com a sensibilidade à flor da pele.
No momento em que se vai deitar, os seus cuidados redobram, embora o facto de não ser obrigado a falar com ninguém (porque se deita longe de todos) constitua um relativo descanso (note-se que a dormida em aposentos comuns era a regra na época).
Voltando a dirigir-se diretamente à sua senhora (5ª estrofe), ele jura-lhe então que, se sobreviver à sua perda, nunca mais amaria ninguém. Mas que prazer terá ela em matá-lo?
A última estrofe, sendo a mais original, é também aquela que mais problemas de leitura e de edição levanta. Na nossa interpretação, o trovador conclui que, trocá-la por outra seria um pecado que Deus nunca lhe perdoaria. Nem ele próprio suportaria infligir-lhe tal afronta: pelo contrário, sendo-lhe então impossível adormecer, nessa altura adormeceria de vez (morreria).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 40

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 40


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas