Martim Soares


Quando me nembra de vós, mia senhor,
em qual afã me fazedes viver,
e de qual guisa leixades Amor
fazer em mi quanto x'el quer fazer,
5entom me cuid'eu de vós a quitar;
mais pois vos vej'e vos ouço falar,
outro cuidad'ar hei log'a prender.
  
Porque vos vejo falar mui melhor
de quantas donas sei e parecer
10e cuid'em como sodes sabedor
de quanto bem dona dev'a saber.
 Este cuidado me faz destorvar
de quant'al cuid'e nom me quer leixar
partir de vós nem de vos bem querer.
  
15E quand'ar soio cuidar no pavor
que me fazedes, mia senhor, sofrer,
entom cuid'eu, enquant'eu vivo for,
que nunca venha ao vosso poder;
  mais tolhe-m'en[de], daqueste cuidar,
 20vosso bom prez e vosso semelhar
e quanto bem de vós ouço dizer.
  
Mais quem vos ousa, mia senhor, catar?
Deus!, como pod'o coraçom quitar
de vós, nen'os olhos de vos veer?
  
25Nem como pode d'al bem desejar
senom de vós, que[m] sol oir falar
em quanto bem Deus em vós faz haver?



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Nota geral:

Quando o trovador se lembra do tormento em que a sua senhora o faz viver, quer desistir de a amar. Mas quando logo depois a vê e a ouve falar, outra apoquentação vem substituir as anteriores: não pode deixar de ficar obcecado com a sua beleza e perfeição, E esta obsessão impede-o de pensar em qualquer outra coisa, incluindo desistir de a amar. Também o pavor que tem dela o leva a não querer estar sob o seu domínio. Mas, de novo, a sua beleza e o bem que ouve dizer dela o impedem.
Nas duas findas, o trovador exprime a sua divisão interior: como ousará olhá-la? E como poderá não o fazer?



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas
Finda (2)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 47, B 159

Cancioneiro da Ajuda - A 47

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 159


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas