Martim Soares


Maravilho-m'eu, mia senhor,
de mim, como posso sofrer
quanta coita me faz haver,
des que vos vi, o voss'amor;
5e maravilho-me log'i
de vós, por leixardes assi
voss'hom'em tal coita viver.
  
Aquesto dig'eu, mia senhor,
por quanto vos quero dizer:
10porque vos fez Deus entender
de todo bem sempr'o melhor;
e a quem Deus tanto bem deu
devia-s'a nembrar do seu
homem coitado e a doer
  
15de tam coitado, mia senhor,
com'hoj'eu vivo, que poder
nom hei de gram coita perder
per al já, se per vós nom for;
e se quiserdes, perderei
20coita per vós ou morrerei;
ca todo é em vosso prazer.
  
E a mia coita, mia senhor,
nom vo-la houvera a dizer,
ante me leixara morrer,
25senom por vós, que hei pavor
de que têm, senhor, por mal
de quem a seu homem nom val,
pois poder há de lhi valer.
  
E pois vos outro bem nom fal,
30por Deus, nom façades atal
 torto qual oídes dizer.



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

O trovador começa por dizer à sua senhora que se espanta de como conseguiu suportar a dor que o seu amor lhe causa. Mas que se espanta também com o facto de ela deixar morrer assim o seu home, isto é, o seu vassalo. E até ao final da composição, o trovador vai servir-se exatamente das regras e do vocabulário do contrato feudal, sobretudo na parte relativa ao dever de ajuda, o qual implicava que o senhor tinha por obrigação socorrer os seus homens ou vassalos em perigo.
Assim, uma senhora a quem Deus deu tanto discernimento, deveria lembrar-se do seu home coitado e condoer-se dele (2ª estrofe); pois só ela lhe poderá valer, estando ele disposto a fazer o que lhe der mais prazer, incluindo morrer (3ª estrofe); e se bem que ele estivesse disposto a calar a sua mágoa e a deixar-se morrer (4ª estrofe), se fala é unicamente porque receia que esta morte cause dano à sua reputação (devido ao já referido dever de ajuda). E termina pedindo-lhe que não faça esse crime.
O recurso ao universo jurídico das relações de vassalagem parece ter a preferência de Martim Soares, que o retoma em várias das suas cantigas de amor.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas (rima c singular)
Palavra(s)-rima: mia senhor (v. 1 de cada estrofe)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 42, B 154

Cancioneiro da Ajuda - A 42

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 154


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas