Paio Soares de Taveirós


 Translate

No mundo nom me sei parelha
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós e ai,
mia senhor branca e vermelha!
 5queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!
  
 E, mia senhor, des aquelha
10me foi a mi mui mal di', ai!
E vós, filha de dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'haver eu por vós garvaia:
pois eu, mia senhor, d'alfaia
15nunca de vós houve nem hei
valia d'ũa correa.



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

Datando da fase inicial da poesia galego-portuguesa, esta é certamente também uma das mais célebres e polémicas cantigas trovadorescas. Os problemas que levanta, nomeadamente os que dizem respeito ao seu sentido exato e, portanto, à sua classificação num género, continuam, de facto, a suscitar discussão e estão longe de uma solução consensual. De qualquer forma, a opinião que tem vindo gradualmente a impor-se entre os especialistas é a de que a chamada "cantiga da garvaia", se não é claramente satírica, muito menos será uma cantiga de amor canónica: o tom humorístico, os detalhes concretos, a identificação da dama (pela sua linhagem) são elementos que claramente a distinguem de uma cantiga de amor tradicional, aproximando-a do universo da sátira.
A interpretação concreta da cantiga continua, no entanto, a levantar muitas interrogações. Dada a ausência de qualquer rubrica explicativa do contexto, é certo que a polémica continuará a existir. Tal como a entendemos, a cantiga será provavelmente um jocoso comentário a uma situação concreta, eventualmente a de o trovador ter surpreendido uma dama em trajes mais informais ("em saia", isto é, sem manto).
A identidade dessa dama poderia contribuir para a carga jocosa/satírica da cantiga, mas infelizmente também nesta matéria não temos grandes certezas. Tradicionalmente, e na sequência da sugestão de Carolina Michaelis1, os editores identificavam a dama a quem o trovador se dirige como sendo D. Maria Pais Ribeiro, a Ribeirinha, célebre amante de D. Sancho I, que era, de facto, filha de um D. Paio Moniz (o nome referido nos vs.11-12). A ser assim, a cantiga não só seria possivelmente uma das mais antigas composições galego-portuguesa (a Ribeirinha foi amante real desde c. 1198 até à morte de D. Sancho, em 1211), como poderia comportar uma dimensão satírica mais lata (ainda que seja difícil dizer exatamente qual). Sendo certo, no entanto, que há notícia de vários Paios Moniz na época, nomeadamente na Galiza, e sendo certo também que é na Galiza que deveremos situar o percurso biográfico do trovador, esta identificação tradicional tem vindo a ser abandonada. Ou seja, esta filha de D. Paio Moniz não será efetivamente a Ribeirinha, mas antes, com toda a probabilidade, uma dama galega (cuja identidade discutimos nas notas).
Acrescente-se ainda que também não seria impossível que esta composição se relacionasse com a cantiga que a precede no Cancioneiro da Ajuda, igualmente bastante heterodoxa (relação já sugerida, aliás, por D. Carolina Michaelis2). De resto, veja-se igualmente a curta biografia de Paio Soares, onde referimos as dúvidas de José Carlos Miranda sobre a autoria destas cantigas.

Referências

1 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. II, Lisboa, Imprensa nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904), p. 317.

2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (2004), "Guarvaia", in Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português (trad. do texto de 1905) , Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis, p. 437.



Nota geral


Descrição

Género incerto
Mestria
Cobras uníssonas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 38

Cancioneiro da Ajuda - A 38


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas