Fernão Pais de Tamalhancos
Trovador medieval


Nacionalidade: Galega

Notas biográficas:

Trovador galego da primeira metade do século XIII, e que pertence, pois, à fase inicial de implantação da poesia galego-portuguesa. Resende de Oliveira1, confirmando dados que tinham sido avançados por D. Carolina Michaëlis, apresentou já os traços centrais da sua biografia. Nascido muito provavelmente na segunda metade do século XII, seria já adulto em 1204, data de um documento em que aparece como testemunha. Mais seguramente, está documentado como tenente do distrito de Búbal (onde se situa a povoação de Tamalhancos), na região de Ourense, entre os anos de 1216 e 1242. Deveria, no entanto, ser já relativamente idoso nesta última data, uma vez que, segundo os Nobiliários (LD 20C3-4), a sua filha Sancha Fernandes casou com um sobrinho de João Fernandes de Lima, mordomo-mor de D. Sancho I entre 1186 e 1208. Nesta medida, é possível que tenha morrido pouco depois do último ano em que está documentado (1242).
Muito recentemente (2011), José António Souto Cabo2 completou estes dados gerais com novas informações inéditas, que permitem desenhar melhor o perfil e o percurso do trovador. Assim, e a partir dos vários nomes pelos quais é referido o tenente de Búval no período referido (Fernando Pais, Fernando Varela e Fernando Pais de Tamallancos), este investigador identifica-o com o cavaleiro a quem os Livros de Linhagens chamam Fernão Pais de Capelo (LL 76A1), alcunha que é explicada a partir de um episódio ocorrido na batalha de Navas de Tolosa (1212), personagem a quem atribuem a origem dos Varela. Na verdade, Souto Cabo demonstra que a linhagem dos Varela está documentada pelo menos três gerações atrás, sendo o seu fundador D. Varela, avô do trovador e importante personagem da corte leonesa, onde está documentado entre os anos 1152 e 1178. Paio Moniz Varela, um dos seus filhos e pai do trovador, desempenhou também cargos importantes, já que foi alferes e mordomo de Afono IX de Leão, ocupando esses cargos em 1197, ano a partir do qual, e até 1202, está documentado na corte do rei Sancho I de Portugal, tendo chegado a ocupar o cargo de alferes entre 1199 e 1202. O próprio Fernão Pais está igualmente documentado como alferes régio leonês no mesmo ano em que seu pai ocupa os referidos cargos nessa corte (1197).
Esta identificação do senhor de Tamalhancos com Fernão Pais Varela, ou de Capelo, permite também acrescentar à biografia do trovador os restantes dados transmitidos pelos Livros de Linhagens sobre este cavaleiro, nomeadamente que foi casado com Teresa Lopes de Ulhoa (a dama a quem, mais tarde, e já como viúva, Afonso Soares Sarraça dirige uma conhecida cantiga satírica), casamento de que resultaram pelo menos dois filhos: Gonçalo e João Fernandes Varela (LL 76A1, ou João e Pedro em LD 20C3-4). Souto Cabo localizou, no entanto, num documento do mosteiro de Carrizo (Leão), duas outras filhas do trovador, Orfresa e Elvira Fernandes, freiras nesse mosteiro, já falecidas em 1275, data na qual o mosteiro estabelece um acordo de partilhas com Sancha Fernandes Varela (a filha do trovador acima referida) respeitante às propriedades da herança familiar das três irmãs. Atendendo ao facto de Orfresa e Elvira não serem referidas pelos Nobiliários (que são igualmente omissos no que respeita ao nome da mãe de Sancha), crê Souto Cabo que elas seriam o fruto de um primeiro casamento do trovador, eventualmente com uma senhora de origem catalã, cujo nome poderia ser igualmente Orfresa. Independentemente do nome da esposa, este primeiro casamento parece, de facto, provável, uma vez que Fernão Pais de Tamalhancos deveria ser já relativamente idoso à data do seu casamento com D. Teresa de Ulhoa, como parece comprovar a já referida cantiga que Afonso Soares Sarraça lhe dirige e onde nos traça o retrato de uma viúva casadoira e ainda relativamente jovem (D. Teresa teve, de facto, filhos, de um segundo casamento).
No que diz respeito ao apelido de Fernão Pais, acrescente-se apenas que, sendo certo que os cancioneiros hesitam entre as formas Tamalancos e Talamancos, mantivemos a primeira, que é aquela que corresponde ao nome da povoação galega (atual Tamalhancos) de onde é originário.


Referências

1 Oliveira, António Resende de (1994), Depois do espectáculo trovadoresco. A estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV, Lisboa, Edições Colibri.

2 Souto Cabo, José António (2011), "Fernando Pais de Tamalhancos, trovador e cavaleiro", Revista de Literatura Medieval, nº, 23, Alcalá de Henáres.
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Cantigas (por ordem alfabética):


Com vossa graça, minha senhor
Género incerto

Gram mal me faz agora 'l-rei
Escárnio e Maldizer

Jograr Saco, nom tenh'eu que fez razom
Cantiga de Escárnio e maldizer

Jograr Sac', eu entendi
Cantiga de Escárnio e maldizer

Nom sei dona que podesse
Género incerto

Quand'eu passei per Dormãa
Cantiga de Escárnio e maldizer

Vedes, senhor, pero me mal fazedes
Cantiga de Amor

Vedes, senhor, u m'eu parti
Cantiga de Amor