Pedro, conde de Barcelos
Trovador medieval


Nacionalidade: Portuguesa

Notas biográficas:

Primogénito bastardo de D. Dinis, e também trovador, D. Pedro de Barcelos é umas das figuras culturalmente mais importantes da Idade Média peninsular. Nascido por volta de 1285, da ligação de D. Dinis com D. Graça Anes Fróiaz (dona de Torres Vedras, cujo túmulo se encontra na sé de Lisboa), D. Pedro Afonso parece ter sido criado, a partir de certa altura (como, aliás, outros filhos bastardos de D. Dinis), na corte régia, na casa da rainha, D. Isabel de Aragão. O documento mais antigo que o refere data de 1289, e dá-nos conta de um conjunto de doações que lhe são concedidas por seu pai, e que se repetirão nos anos posteriores. Casa, nos primeiros anos do século XIV, com a rica herdeira D. Branca Peres, filha de D. Pero Anes de Portel e D. Constança Mendes de Sousa, enviuvando pouco depois, devido à morte prematura, por parto, de D. Branca (1305). Herdando os avultados bens da mulher, D. Pedro, já então largamente beneficiado por seu pai, transforma-se num dos homens mais ricos do reino.
Em 1307 desempenha o cargo de mordomo da infanta D. Beatriz, futura mulher de Afonso IV, seu irmão (que veio para Portugal ainda muito jovem). Em finais de 1308, casa novamente, desta vez com a também rica herdeira aragonesa D. Maria Ximenes Coronel, casamento eventualmente negociado pela rainha D. Isabel (muito embora, como sugere Resende de Oliveira1, D. Pedro possa ter conhecido a noiva em 1304, quando acompanhou D. Dinis na sua viagem a Aragão). Por motivos algo obscuros, mas em que entram em jogo factos caluniosos imputados a D. Maria Ximenes (referidos mas nunca claramente explicitados na abundante correspondência trocada entre D. Dinis, D. Isabel e o rei Jaime II de Aragão sobre o assunto2), o casal desentende-se gravemente, e, em 1316, separa-se de facto, decorrendo, a partir daí, um complicado processo de partilha de bens, que se arrasta longos anos.
Entretanto, desde 1314, D. Pedro Afonso ostentava já o título de Conde de Barcelos, que lhe tinha sido concedido por seu pai, pelos serviços prestados à Coroa, ocupando igualmente o cargo de alferes-mor do reino (título e cargo deixados vagos pela morte de D. Martim Gil de Riba de Vizela, em 1312). A partir de 1317-1318, no entanto, momento em que estala abertamente o conflito entre D. Dinis e o infante D. Afonso, seu primogénito e herdeiro, o Conde de Barcelos parece ter tomado preferencialmente o partido de seu irmão, motivo pelo qual o rei lhe confisca todos os seus bens, levando-o igualmente a exilar-se em Castela, onde permanece até 1322. No seu regresso a Portugal, retoma, contudo, a posse da maior parte do seu vasto património, muito certamente pela posição apaziguadora que passa a tomar no conflito.
Seja como for, com a morte de D. Dinis, em 1325, e a subida ao trono de seu irmão, parece ter optado por viver preferencialmente nos seus domínios de Lalim, Arouca, com a sua companheira, a castelhana Teresa Anes de Toledo, e onde, para além de ter mantido, ao que tudo indica, um círculo restrito de trovadores e jograis, leva a cabo um notabilíssimo trabalho cultural, de que resulta, desde logo, a organização do seu Livro de Linhagens e a redação da Crónica Geral de Espanha de 1344, o primeiro grande texto historiográfico português. Mas será certamente também em Lalim que o Conde D. Pedro procede à compilação dos materiais de que resultará o seu Livro das Cantigas (que doa, em testamento datado de 1350, ao seu sobrinho Afonso XI de Castela), seguramente a última grande antologia da poesia trovadoresca, matriz do manuscrito que será copiado em Itália no século XVI, e de que resultam os dois apógrafos italianos onde hoje podemos encontrar a parte mais substancial das cantigas galego-portuguesas.
D. Pedro morre em Lalim, nos primeiros meses de 1354, estando sepultado, num túmulo de interessante feitura artística, no mosteiro de S. João de Tarouca, conforme determinado no seu testamento.


Referências

1 Oliveira, António Resende de (1994), Depois do espectáculo trovadoresco. A estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV, Lisboa, Edições Colibri.

2 Fernandes, A. de Almeida (1990), A história de Lalim, Câmara Municipal de Lamego, Junta de freguesia de Lalim.

Ler todas as cantigas (por ordem dos cancioneiros)


Cantigas (por ordem alfabética):


Álvar Rodríguez, monteiro maior
Cantiga de Escárnio e maldizer

Mandei pedir noutro dia
Escárnio e Maldizer

Martim Vásquez, noutro dia
Escárnio e Maldizer

Natura das animalhas
Cantiga de Escárnio e maldizer

Nom me poss'eu de morte defender
Cantiga de Amor

Nom quer'a Deus por mia morte rogar
Género incerto

Os privados, que d'el-rei ham
Cantiga de Escárnio e maldizer

Que muito bem me fez Nostro Senhor
Cantiga de Amor

Tal sazom foi em que eu já perdi
Cantiga de Amor

Um cavaleiro havia
Cantiga de Escárnio e maldizer